estudos de caso e o racismo lúdico

Hoje te convido a fazer um estudo de casos. Acompanhe estas descrições e pense comigo…


Estudos de caso e o racismo lúdico

Caso 1:

 Diretora da Vogue, Donata Meirelles completa 50 anos e tem a brilhante ideia de comemorá-los com uma grande festa cujo tema é a valorização da cultura baiana. Como já sabemos, a cultura baiana está intimamente ligada à dos povos afrodescendentes, portanto, Donata planejou sua festa baseada em aspectos culturais negros no nosso país. Imagens da festa acabaram sendo um grande incômodo, já que parecia retratar uma volta ao período colonial em que haveria uma mulher branca sendo assessorada por mulheres negras.

 Caso 2:

Paula von Sperling, integrante da casa do Big Brother Brasil, comenta sobre “cabelo ruim” de outra participante do programa e também faz comentários preconceituosos a respeito de religiões de matriz africana. Tudo isso tendo consciência de que estava em rede nacional, mas isso não lhe pareceu um problema.

 Caso 3:

 Esse tipo de situação eu vou deixar para você completar com qualquer caso que você tenha presenciado ou ficado sabendo. Pode ser que tenha ocorrido com pessoas bem próximas a você ou que alguém tenham feito piadas/comentários “inocentes” sobre algum colega ou conhecido negro. Frases como: “Só podia ser preto”; “Faça isso pq você é o preto do rolê…

Bom, agora pense comigo: O que a festa de Meirelles, os comentários racistas entre participantes do BBB e as piadas que você ouve entre amigos têm em comum?

Acredite se quiser, mas nos 3 casos estamos lidando com o racismo. Antes que você me diga: “mas não foi intencional…” vou te contar uma verdade: racismo não precisa ser intencional para que aconteça. Na verdade, muitas vezes não é. Esse racismo não intencional, mas largamente reproduzido é o racismo estrutural.

 Essa história começa (na verdade começa bem antes, mas para fins didáticos, vamos começar daqui) em 1888 quando, oficialmente, a lei Áurea é assinada e escravos passam a ser livres. Isso aconteceu sem nenhuma tentativa efetiva de assistir àqueles que até então viviam em situação de escravidão. O tempo foi passando e as desigualdades se perpetuaram.

 Agora se imagine participando de uma corrida tendo que iniciar muito depois do seu oponente. A lógica é simples: caso não haja nenhuma intervenção seu oponente sempre terá vantagem em relação a você, certo? Certo, e na corrida da história não foi diferente. Os negros foram libertos, mas o racismo não foi tratado, as condições econômicas não foram niveladas, o preconceito religioso continuou, o branqueamento ainda era desejado, a cultura afrodescendente continuava sendo considerada inferior e nociva.

 Nesse momento da história pessoas negras eram livres, porém  marginalizados. Elas eram livres, oficialmente, mas no dia-a-dia discriminadas e as oportunidades lhes eram negadas. Seus “oponentes” sempre tinham vantagem.

 Nasce, então, um problema estrutural.

 Imagine uma construção. Como bons engenheiros que somos (sqn) sabemos que para segurar um grande edifício precisamos de um excelente alicerce, afinal todo o resto estará comprometido caso esse alicerce seja ruim. Entretanto, vamos imaginar que, por um erro de cálculo , nosso alicerce dá errado, mas estamos com pouco tempo para arrumar e decidimos construir o resto por cima e seja o que Deus quiser.

 Construímos os andares, chegamos ao final e temos uma brilhante ideia: “Bora arrasar nesse acabamento porque aí ninguém vai perceber que o alicerce tá zoado e não precisaremos mexer nesse problema.”

 Gravou essa historinha? Então acompanhe comigo. Podemos comparar a construção do Brasil com este edifício e as desigualdades raciais mantidas pela história são como a má formação do alicerce. Agora conseguiremos entender o termo: racismo estrutural.

 Ao dizermos que existe um racismo no Brasil, e este é estrutural, estamos dizendo que lá atrás a falta de assistência do Estado em relação ao povo que acabara de ser liberto foi um alicerce com um grande erro de cálculo. Todo o edifício construído a partir daí foi comprometido. Todas as vezes que o Estado se negava a interferir, a fim de consertar essa estrutura, mais um tijolo era colocado.

 O Brasil se desenvolve com um alicerce estragado devido à falta de iniciativas que proporcionaram a inserção saudável do povo negro à sociedade; uma construção gigantesca de leis, instituições, crenças populares, preconceitos, padrões de beleza completamente afetados pelo alicerce do racismo. Para terminar: temos o acabamento o qual , na história do nosso país, é o discurso muito bem articulado que, em nome de uma miscigenação, apaga as diferenças existentes entre brancos e negros. Isso nos faz acreditar que não existe racismo no Brasil.

Qual é o maior problema de um edifício que está lindo por fora e podre em sua estrutura? Provavelmente um dia ele vai desmoronar sem que ninguém tivesse suspeitado da sua situação. O discurso funciona da mesma forma e podemos vê-lo em ação nestes três casos citados no início do artigo.

No primeiro caso temos alguém branco, idealizando uma festa para pessoas brancas, majoritariamente. Tendo como representantes do tema da festa, mulheres negras e objetos que remetem a religiões afrodescendente. No discurso há uma valorização da cultura baiana, mas na prática uma clara manifestação da estrutura racista em que os aspectos da cultura negra só são acionados e representados para entretenimento. Muito provavelmente um racismo não intencional, porém igualmente nocivo, já que reproduz a utilização de símbolos culturais em nome da diversão e apenas para isso.

No segundo e no terceiro caso vemos comentários maldosos sobre aspectos religiosos e físicos do povo negro, em tom de piada . Ditos com uma naturalidade impressionante, em rede nacional ou nas nossas reuniões de família, mostrando-nos que são opiniões recorrentes e nada pontuais.

O ponto em comum de todos esses casos é a utilização do discurso para criar uma forma de racismo lúdico. Um racismo que em nome da comédia, da piada e do entretenimento se utiliza da cultura de um povo oprimido para esconder essa opressão.

Afinal, se uma piada sobre negros é feita numa roda de amigos ninguém se sente confortável em chamar a atenção, já que é “só uma piada”.

O tom de comédia ou, até mesmo, a valorização da cultura negra em momentos bem específicos são formas poderosas de se utilizar o discurso para esconder a estrutura racista. A história do povo negro – enquanto dor, sofrimento, tortura e crime –  que faria com que as pessoas se conscientizassem, refletissem e mudassem é apagada.

 É isso mesmo: todos nós sabemos que a escravidão ocorreu e que foi bem ruim, mas em quantos de nós isso causa uma repulsa ou um embrulho no estômago como, por exemplo, causa o holocausto?

 A escravidão não é vista, por todos os brasileiros, como dor e dívida. Pelo contrário: o discurso serve como acabamento bonito. Falamos de uma maneira que deixa transparecer a superação dessa fase pelo Brasil. Como se ele já tivesse aprendido a tratar todos igualmente.

Não discutimos, não dialogamos. Todas as vezes que optamos por não falar sobre o assunto ou afirmamos que o racismo não existe estamos perdendo a oportunidade de enfraquecer essa estrutura podre a qual vem persistindo por tanto tempo.

                Então, agora, pare para refletir sobre essas questões tão vívidas em nossa sociedade e envie esse artigo para amigos, familiares, colegas de turma.

                É isso e até a próxima!

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